Planejamento financeiro é o que une atletas milionários e pessoas comuns no caminho rumo à aposentadoria antecipada, e especialistas explicam como chegar lá
Karina Merli
27/08/2025
Atualizado há 2 dias
Guido Mieth/Getty Images
Quem deseja antecipar o sonho da aposentadoria deve fazer planejamento detalhado, considerando riscos, eventualidades, gastos atuais e projetos futuros.
Se você é um apaixonado por futebol, já deve ter sonhado algum dia em ser um jogador. Fazer o gol da vitória, construir uma carreira vitoriosa e tornar-se ídolo no time do coração. Quem nunca? Um sonho intenso, mas de curta duração para aqueles que e o vivem, já que, mesmo com o avanço da medicina, são poucos os atletas que continuam em atividade para além dos 35 anos. Porém, seja na fantasia ou na realidade, sendo atleta profissional ou um mero mortal, todos desejam ter uma aposentadoria tranquila, de preferência, mantendo o padrão de vida. E, se for antecipada, melhor ainda.
O caminho é complexo e requer bastante disciplina. Se a meta é antecipar o merecido descanso, a marcação precisa ser acirrada, não só pelo tempo menor para poupar, mas também pelo fato de que a sociedade vive um processo de maior longevidade. Embora não tenha receita pronta, especialistas da área montaram uma escalação com o passo a passo para encontrar o melhor caminho, que pode ser seguido por atletas com salários milionários e por você. Confira.
Como entrar em campo com o pé direito
Segundo estudo da Planejar (Associação Brasileira de Planejamento Financeiro), na média, um atleta que joga a Série A do Campeonato Brasileiro precisa acumular ao menos R$ 107,5 milhões para manter o estilo de vida de quando estava na ativa. Isso se o seu início de carreira tiver sido aos 20 anos. O valor renderia anualmente R$ 4,3 milhões, valor que, segundo a associação, é a média salarial da elite do futebol nacional. No caso, o montante exigiria que o jogador poupasse, por ano, R$ 4,14 milhões.
De toda forma, mesmo que você não ganhe um salário tão considerável quanto um jogador de futebol, quanto antes começar a juntar dinheiro, melhor. “Quando falamos de investimentos, há algo muito poderoso chamado juros compostos, algo que joga a favor com o tempo do dinheiro investido. Portanto, quanto maior o prazo, maior o retorno”, destaca Sharon Halpern, sócia e private banker da Blackbird.
No entanto, o mais comum é iniciar esse preparo a partir dos 35 e 40 anos. O especialista da Planejar explica que muitas pessoas têm dificuldade em pensar como querem vivenciar a aposentadoria quando são ainda muito novas. “Aos 20 anos é realmente bastante difícil imaginar onde você quer estar dentro de 40 anos”, afirma.
No caso de um jogador profissional, isso precisa ser feito desde o início da carreira – que pode ser aos 12 anos, conforme definição da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Ou entre 16 e 18 anos, quando muitos começam a brilhar nas equipes principais.
Rogério Nakata, planejador financeiro responsável pelos cálculos do estudo, afirma que “ganhar muito não garante segurança se o dinheiro não estiver bem administrado”. Ele destaca a importância de saber trabalhar a receita para que gere patrimônio. “O jogo mais difícil não acontece dentro das quatro linhas, mas no modo como cada um gerencia o que conquistou. Quem aprende isso cedo, joga com vantagem, inclusive fora de campo, onde a partida é para a vida toda”, afirma Nakata.
No caso de um trabalhador, o quanto poupar é relativo não só pelas questões da aposentadoria ideal, mas também pela média salarial. Quem ganha mais tem maior flexibilidade. De toda forma, por mais tímida que seja a quantia, deixá-la a salvo é algo que deve se tornar rotina. “É fundamental ter a disciplina de poupar todo mês”, afirma a sócia da Blackbird.
Alguns dos caminhos apontados pela Planejar para isso incluem: separação automática de até metade da renda líquida no ato do recebimento, criar uma reserva de emergência com liquidez imediata ou diversificar os investimentos. Produtos como Tesouro IPCA+, CDBs, previdência privada, fundos imobiliários e imóveis para locação aparecem como alternativas sólidas. Automatizar os aportes é uma forma de blindar a disciplina financeira contra distrações de curto prazo.
No aquecimento
Assim como no futebol, quem deseja uma aposentadoria antecipada precisa não só se preparar bem, mas estudar os possíveis adversários. É fundamental considerar: a idade à qual pretende se aposentar, o estilo de vida que gostaria de ter quando chegar lá, o local onde pretende morar e se deseja deixar parte de seu patrimônio a algum herdeiro.
“A pessoa deve estabelecer como será essa aposentadoria: ela continuará trabalhando ou não? Depois disso, deve ter uma estimativa do custo de vida que terá nesse momento, combinando gastos fixos com os não fixos”, afirma Halpern.
Thiago Picanço, sócio e head de wealth management da Reach Capital, aponta que, além disso, é preciso pensar na expectativa de vida, um assunto que ainda é tabu. Por outro lado, a probabilidade é uma importante aliada nesse tema. Em assessorias financeiras é comum o uso da simulação Monte Carlo, que não só considera as possibilidades da pessoa morrer com o avançar da idade, mas também cenários econômicos. “Eu recomendo que sejam usadas diferentes metodologias, até para garantir que, se uma não der certo, a outra resguarda”, completa Picanço.
Com todas as informações em mãos, a pessoa deve entender o seu agora, colocando na ponta do lápis o quanto se pode gastar e o quanto se deve poupar. O analista da Reach lembra que nessas anotações também é importante listar os planos futuros até a aposentadoria. E a organização, no longo prazo, tem muito mais valor do que escolher o investimento A, B ou C.
Uma caixinha de surpresas
Vez ou outra, acontece do treinador já ter feito todas as substituições e, inesperadamente, o goleiro se lesiona ou é expulso. Com um a menos, um atleta da linha assume a posição no gol, o que não é bem o ideal. Isso tudo talvez não aconteceria se o treinador esperasse fazer a última substituição ou o arqueiro tivesse sido mais disciplinado.
Assim como no futebol, é preciso considerar que imprevistos acontecem antes e durante a aposentadoria. Por isso, é preciso se preparar para esses eventos. Carlos Castro, planejador financeiro da Planejar, destaca que é sempre bom ter um desvio positivo.
Outro ponto a ser considerado no planejamento é a inflação, um índice que pode variar bastante até a sonhada aposentadoria, mas que é possível ter uma estimativa. “Uma forma mais conservadora de se calcular esse montante é usando o juro real da economia”, diz Castro. Ele ainda recomenda que o futuro aposentado direcione recursos para investimentos com rendimento acima da inflação.
Além disso, é recomendável pensar além da carteira de investimentos, um exemplo disso é o seguro de vida. “Se a pessoa tem uma doença grave mais à frente, por exemplo, pode ser que aquele planejamento financeiro inicial seja insuficiente para dar conta desse imprevisto e do restante da vida”, diz Halpern.
No caso de um atleta, o planejamento financeiro também é crucial. “Se ele não se organiza e deixa para fazer isso depois, as finanças se tornam um navio sem bússola, que corre o risco de naufragar ou chegar a um lugar não tão legal”, aponta Picanço.
Atenção com o adversário
Se em campo, o jogador deve conhecer bem a equipe rival, fora das quatro linhas é recomendável ter atenção aos riscos, sobretudo perto da aposentadoria. “À medida em que a pessoa se aproxima da fase de desacumulação, em que a renda que ela guardou começará a cair, é preciso refletir o quanto ela quer se expor. A depender do grau de risco, uma eventual perda pode diminuir a renda consideravelmente e não há tempo hábil para uma recuperação”, diz o planejador financeiro da Planejar.
Portanto, quem deseja maior rentabilidade, deve apostar nisso no início do planejamento financeiro e, perto da aposentadoria, adotar uma postura mais conservadora. “É possível manter o padrão sem depender de exposição constante, desde que o patrimônio seja bem estruturado”, afirma Nakata.
É claro que no caminho até a conquista da aposentadoria há diversos desafios, como gastos impulsivos e decisões mal assessoradas. Por isso, para não levar cartão vermelho, também é recomendável se planejar para o momento.
“É preciso ter em mente que a aposentadoria chegou e tomar cuidado com eventuais acréscimos ou aumentos do padrão de vida”, alerta Halpern. Ela afirma que o maior tempo para lazer pode fazer com que os gastos sejam rapidamente escalados.
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