
Em um cenário econômico marcado por incertezas, volatilidade nos mercados e mudanças frequentes no comportamento do consumidor e dos investidores, a construção de uma reserva financeira sólida deixou de ser apenas uma recomendação e passou a ser uma necessidade. É nesse contexto que o Tesouro Reserva se consolida como um dos instrumentos mais importantes para a organização financeira das pessoas e famílias brasileiras. A expectativa é que essa modalidade, atualmente em fase de testes para alguns clientes do Banco do Brasil, seja lançada em março com o objetivo de auxiliar os investidores na construção do seu primeiro colchão financeiro para imprevistos. Esses imprevistos podem ocorrer com qualquer pessoa, desde a necessidade de manutenção de um eletrodoméstico ou reparos em um automóvel de uso diário, até despesas médicas inesperadas, como a doença de um filho ou uma enfermidade repentina. Também se enquadram situações como viagens necessárias de última hora, desde que não tenham finalidade de lazer.
Mais do que um investimento, o Tesouro Reserva cumpre um papel estrutural dentro do planejamento financeiro: oferecer liquidez, previsibilidade e segurança para lidar com imprevistos sem comprometer projetos de longo prazo.
O que é o Tesouro Reserva?
O Tesouro Reserva é um título público federal voltado especificamente para a formação de reserva financeira. Ele foi desenhado para substituir, com vantagens claras, alternativas tradicionalmente utilizadas para esse fim, como a poupança. Dentre elas poderíamos citar, por exemplo, os cofrinhos do NuBank, Pic Pay, Inter e Itaú, dentre outros que também propõem a mesma funcionalidade, mas que serão menos interessantes do que esta modalidade a ser lançada pelo Tesouro Nacional no próximo mês.
Na prática, trata-se de um título emitido pelo Tesouro Nacional, com rentabilidade pós-fixada atrelada à taxa básica de juros da economia e liquidez diária. Isso significa que o investidor pode resgatar os recursos sempre que necessário, com baixíssimo risco e elevada previsibilidade, tornando essa alternativa mais segura e, em geral, mais rentável do que a tradicional Caderneta de Poupança.
Por ser um título público, o Tesouro Reserva tem como emissor o próprio governo federal, o que o posiciona como o investimento de menor risco de crédito da economia brasileira.
O papel do Tesouro Reserva no Planejamento Financeiro
Dentro de uma estratégia bem estruturada, o Tesouro Reserva não é o investimento que busca maximizar retornos, mas sim aquele que protege o investidor contra decisões ruins em momentos de emergência.
Ele atua como:
- Colchão financeiro para imprevistos (saúde, desemprego, reparos urgentes);
- Fonte de liquidez imediata, evitando o uso de crédito caro como, por exemplo, o cheque especial, o cartão de crédito, empréstimos pessoais;
- Proteção emocional, reduzindo o estresse financeiro e a tomada de decisões impulsivas.
Famílias que não possuem uma reserva adequada costumam recorrer a cartão de crédito, cheque especial ou empréstimos pessoais em situações de necessidade, comprometendo o orçamento futuro com juros elevados. O Tesouro Reserva, na pática, quebra o ciclo de tomada de recursos de terceiros e cria a era do planejamento por meio de recursos próprios.
Rentabilidade e funcionamento
A rentabilidade do Tesouro Reserva é vinculada à taxa Selic, o que significa que ele acompanha o movimento dos juros básicos da economia. Em ambientes de juros elevados, sua atratividade aumenta; em ciclos de queda, continua cumprindo seu papel de preservação de capital e liquidez.
Entre suas principais características estão:
- Rentabilidade diária, com atualização constante do valor investido;
- Liquidez diária, permitindo resgates 24 horas por dia, 7 dias por semana via PIX;
- Aplicação acessível, com valor inicial bastante baixo, a partir de R$ 1, e não de R$ 180, conforme anunciado atualmente no site do Tesouro (Tesouro Selic 2031).
- Transparência, com regras claras de funcionamento.
- Ausência de marcação a mercado. Embora esse efeito já seja bastante reduzido em títulos públicos atrelados à Selic, no Tesouro Reserva ele não ocorre. Na prática, isso elimina a oscilação diária dos preços dos títulos, fazendo com que o saldo do investidor evolua de forma contínua e previsível na conta de investimentos.
Tributação e custos
Como qualquer investimento em renda fixa no Brasil, o Tesouro Reserva está sujeito ao Imposto de Renda regressivo, conforme o prazo de permanência do recurso:
- 22,5% até 180 dias
- 20% de 181 a 360 dias
- 17,5% de 361 a 720 dias
- 15% acima de 720 dias
O imposto incide apenas sobre os rendimentos, e não sobre o valor total aplicado.
Ainda não há informações oficiais sobre a cobrança da taxa de custódia da B3, atualmente de 0,20% ao ano, incidente sobre o saldo investido no Tesouro Selic. Mesmo assim, ainda que essa taxa venha a ser aplicada, o Tesouro Reserva tende a apresentar desempenho superior ao da caderneta de poupança na maioria dos cenários econômicos.
Tesouro Reserva x Poupança: diferenças práticas
Apesar de ambos serem utilizados para reserva financeira, existem diferenças relevantes:
- Rentabilidade: o Tesouro Reserva acompanha a Selic, enquanto a poupança possui regras que limitam seus ganhos em determinados cenários (atualmente a poupança paga 70% da Selic);
- Transparência: o Tesouro Reserva tem regras claras e previsíveis;
- Disciplina: por estar dentro de uma plataforma de investimentos, o Tesouro Reserva reduz o uso impulsivo do dinheiro;
- Eficiência financeira: no médio prazo, tende a entregar melhor retorno real.
Para quem busca simplicidade absoluta e não pretende acompanhar investimentos, a poupança ainda pode ter espaço. No entanto, para quem deseja dar um passo a mais em sua organização financeira, o Tesouro Reserva se mostra claramente superior.
Quanto investir no Tesouro Reserva?
A recomendação é que a reserva de emergência cubra ao menos 6 meses das despesas essenciais da família. Em situações de maior instabilidade profissional ou renda variável, esse número pode chegar a 9 ou até 12 meses.
O valor ideal depende de fatores como:
- Estabilidade da renda;
- Número de dependentes;
- Profissão e mercado de atuação;
- Existência de outras fontes de renda.
O mais importante não é atingir o valor ideal rapidamente, mas criar o hábito de aportar de forma recorrente até alcançar o objetivo.
Para quem o Tesouro Reserva é indicado
O Tesouro Reserva é indicado para:
- Pessoas que estão começando a investir;
- Famílias que ainda não possuem reserva de emergência;
- Profissionais autônomos ou com renda variável;
- Investidores conservadores para a parcela de liquidez;
- Qualquer pessoa que deseja proteção financeira antes de investir no longo prazo.
Mesmo investidores experientes mantêm parte do patrimônio nesse tipo de instrumento, justamente pela função estratégica que ele exerce.
O Tesouro Reserva é um tipo de investimento voltado à construção de uma base financeira sólida para o planejamento financeiro. Ele representa uma estrutura saudável, funcionando como um amortecedor diante dos imprevistos da vida e contribuindo para a manutenção dos objetivos de longo prazo.
Antes de pensar em rentabilidade elevada, diversificação sofisticada ou investimentos mais complexos, construir uma reserva mais robusta deve ser prioridade máxima. Nesse sentido, o Tesouro Reserva cumpre com excelência seu papel: simples, acessível, seguro e eficiente.
Nas finanças pessoais, segurança não é conservadorismo, é inteligência estratégica e, para auxiliá-lo nesta jornada rumo a uma vida financeira mais planejada, conte sempre com o auxílio de um planejador financeiro com a certificação CFP®.
Rogério Nakata é Planejador Financeiro CFP® da Economia Comportamental e palestrante sobre os temas Educação Financeira e Planejamento Financeiro de grandes organizações públicas e privadas.